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“Com a boca no mundo”: Governador não é rei. Nem Deus. Então por que vive como um?

Minas Gerais não é uma monarquia. Não é um feudo. E definitivamente não é uma teocracia. Mas o decreto de Romeu Zema sobre segurança vitalícia disfarçada para ex-governadores tenta transformar o Palácio Tiradentes numa corte real, onde quem senta na cadeira ganha direito a guarda-costas, privilégios e proteção estendida até para “pessoas com vínculo”. Vínculo com quem? Com o poder? Com o governador? Com a amizade? Com o compadrio?

Zema resolveu, às vésperas de deixar o cargo para disputar a Presidência, ampliar para si próprio um benefício que o próprio Zema havia reduzido. É o famoso “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Primeiro corta, posa de austero, depois amplia quando o CPF beneficiado é o dele. Coincidência? Só para quem ainda acredita em Papai Noel.

O decreto não só estica o prazo de proteção como abre uma porteira perigosa ao incluir familiares e “pessoas com vínculo” sob o manto do “interesse público”. Interesse público de quem? Do contribuinte que pega ônibus lotado? Da mãe que espera vaga em UPA? Ou do político que quer continuar vivendo sob escolta paga pelo povo mesmo depois de sair do cargo?

E não para por aí. Agora a segurança do governador não é mais só física, mas também “moral e institucional”. Em português claro: a máquina pública passa a servir não só para proteger vidas, mas para blindar reputações. Para impedir constrangimentos. Para evitar críticas? Para afastar protestos? Para controlar imagem? Desde quando polícia existe para defender honra de político?

A história mostra o absurdo desse privilégio. Aécio tentou transformar isso em benefício vitalício. Anastasia carimbou. O STF teve que lembrar o óbvio: não existe risco eterno, mas o privilégio tenta ser. Agora Zema reapresenta a velha lógica com verniz técnico.

Governador não é rei. Não é divindade. Não é entidade acima da sociedade. Terminado o mandato, termina o poder, e deveriam terminar, também, os privilégios. Se há risco real, que seja avaliado caso a caso, com transparência e prazo curto. O que Minas não pode aceitar é a criação de uma aristocracia de ex-governantes protegidos enquanto o povo anda sozinho, sem escolta, sem segurança e sem Estado.

Isso não é proteção. É casta. E castas não combinam com democracia.

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