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“Com a boca no mundo”: prisão de Jair Bolsonaro é mais um capítulo de uma novela sem roteiro

Se a família Bolsonaro tivesse seguido carreira artística, talvez, em algum momento, tivesse disputando espaço nas tardes de domingo. Contudo, a cada novo episódio, essa trama que eles próprios insistem em escrever parece mais uma novela de baixíssima audiência, daquelas que a emissora exibe apenas para cumprir contrato. E mais uma vez, a estratégia do clã vira contra o próprio protagonista, agora preso preventivamente, cercado por trapalhadas que nem roteirista de comédia pastelão ousaria propor.

O capítulo da semana é emblemático: Flávio Bolsonaro grava um vídeo conclamando apoiadores para uma vigília na porta da casa do pai – como se fosse possível reverter problemas jurídicos com palmas, velas e gritos de “mito”. Resultado? Um empurrãozinho involuntário para que a Justiça enxergasse nisso uma tentativa clara de tumultuar o processo. A “grande estratégia” familiar, mais uma vez, serviu apenas para acelerar o pior cenário imaginável.

E não para por aí. Entre falhas suspeitas na tornozeleira eletrônica, sinais de que alguém andou mexendo onde não devia e discursos cada vez mais desconectados da realidade, a narrativa construída pelos Bolsonaro parece seguir uma lógica simples: tudo o que NÃO deve ser feito, eles fazem, e em dobro. É quase um manual de autossabotagem política e jurídica.

Enquanto isso, a ala fiel tenta manter o enredo de mártir vivo, mas mesmo os defensores mais animados já demonstram certo cansaço. Ou, ainda, tentam, de forma desesperada, alegar situações que imagens recentes contradizem, inclusive à saúde de Bolsonaro. Assim fica difícil defender quem transforma cada cena em um tropeço, numa estratégia maluca, pseudológica e, pior, falada reiteradas vezes para convencer pessoas a entrarem na trama, ainda que como figurantes. A família age como se ainda estivesse no palanque, mas o mundo real não funciona com hashtags, lives inflamadas ou convocações dramáticas gravadas no celular. O mesmo vale para quem compra a briga, que acaba passando vergonha posteriormente, em vídeos que mais os representa como lunáticos.

O fato é que, na vida pública, não basta criar barulho: é preciso estratégia. E, nessa novela, o que não falta é barulho, mas sobra amadorismo. A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, fruto direto de atitudes impensadas e recados mal calculados, mostra que a família segue fiel ao próprio enredo: quanto mais tenta se defender, mais se complica. O pior de tudo é que não se dão conta disso e seguem a novela adiante, com apenas uma parte assistindo pelo WhatsApp as cenas sem nenhum efeito especial.

Se esta coluna fosse dar um conselho, diria: está na hora de contratar um novo roteirista. Porque, do jeito que vai, nem reprise no streaming salva essa trama.

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