Tem gente que olha para uma tragédia e enxerga oportunidade, que não é de solidariedade, não. Os escândalos envolvendo os desvios de doações destinadas às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, atravessaram fronteiras e foram parar em brechós nos Estados Unidos. Isso é mais uma prova de que vivemos numa sociedade que perdeu o senso mínimo de empatia. O que deveria aquecer quem perdeu tudo acabou servindo para aquecer bolso de gente sem escrúpulo vira mercadoria para enriquecimento ilícito. É vergonhoso, repugnante e, infelizmente, nada surpreendente.
Enquanto famílias tentavam se reerguer na lama, havia quem escolhesse transformar a tragédia alheia em lucro. São os “empreendedores da miséria”, especialistas em aproveitar brechas de processos sociais frágeis. E depois ainda querem posar de cidadãos exemplares, como se canalhice com etiqueta fosse menos canalhice.
Mas talvez pior que isso seja a banalização da desculpa médica que aparece depois do crime: de repente, o sujeito que desviou toneladas de donativos “não podia responder pelos seus atos”. Curioso como ninguém lembra da própria “incapacidade” antes de lucrar com a desgraça alheia. A medicina é séria, mas alguns laudos viraram passaporte de impunidade. O mesmo vale para quem mata – caso do gari em BH -, por exemplo. O assassino passou a negar o crime, depois de confessar. Agora ele disse que foi coagido. Quanta lorota!
E aí fica a pergunta incômoda: quantas pessoas ao nosso redor circulam com transtornos mentais graves sem diagnóstico, sem cuidado, sem acompanhamento? Quantas têm acesso real à saúde mental e quantas são simplesmente abandonadas até que seus surtos virem caso de polícia? E como tantas coisas mudam de rotas sem nenhuma segurança? Tudo meio que fica sem explicação. Resta a nós, a lamúria e o asco!
Vivemos num país onde a confiança social está tão desgastada que sair de casa virou ato de coragem. A sensação de que qualquer pessoa ao nosso lado pode estar à beira de um rompimento, seja moral, emocional ou criminal. E isso é real. E quando até doações de emergência não estão a salvo da ganância, percebemos que a doença não é individual: é coletiva. Pior que isso: em vários momentos, vira pauta política, em que uns podem e outros não. De toda a forma, uma vergonha para quem ainda tem o mínimo de senso.
No fim, fica a certeza amarga: precisamos de políticas sérias, fiscalização de verdade e, principalmente, de humanidade. Porque, do jeito que está, a sociedade parece doente demais até para reconhecer que está doente.








