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“Com a boca no mundo”: Angelica descobriu o feminismo agora?

Angelica, sempre alinhada ao bom-mocismo televisivo e à estética da neutralidade, resolveu dar seu pitaco sobre a futura vaga no STF. A apresentadora declarou que Lula deveria indicar uma mulher negra para a Corte, um pedido que, em tese, pareceria alinhado a uma pauta progressista. Mas a memória política do Brasil não é tão curta assim, e vale relembrar: a mesma Angelica que hoje posa de entusiasta da representatividade esteve entre as celebridades que engrossaram o coro pelo impeachment de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar a Presidência da República.

Na época, Angelica não demonstrou qualquer entusiasmo com o fato histórico de uma mulher comandar o país. Muito pelo contrário, esteve ao lado de Michel Temer e do grande teatro que culminou no golpe parlamentar de 2016. Nenhum discurso exaltando a presença feminina no poder, nenhuma defesa da legitimidade de uma mulher eleita pelo voto popular. Dilma, para essa ala seletiva da “cidadania de redes sociais”, nunca foi vista como símbolo de representatividade, talvez porque não cabia no molde da celebridade palatável, talvez porque o feminismo que vale é o que cabe em post de Instagram com filtro amarelado e legenda sobre empatia ou em um programete qualquer.

Agora, passados alguns anos, Angelica surge como voz preocupada com a diversidade institucional, pedindo a Lula que faça história com a indicação de uma ministra negra ao Supremo. A pergunta é inevitável: trata-se de uma revisão sincera de posicionamento ou apenas mais uma adesão cosmética à pauta que rende aplausos na internet? Porque defender uma ministra negra no STF é importante, urgente e necessário, mas soa contraditório vindo de quem não moveu uma vírgula pela manutenção de uma mulher no poder quando teve a chance.

A postura de Angelica revela um fenômeno comum entre figuras públicas: o ativismo sob demanda, aquele que só aparece quando é confortável, elegante e instagramável. A representatividade, para essa lógica, não é compromisso político, mas um ornamento de imagem. E Lula, que já sinaliza nomes de perfil garantista e técnico para o STF, deve estar atento: há uma diferença enorme entre ser cobrado por justiça histórica e ser pressionado por celebridades em busca de engajamento fácil.

Angelica pode até ter mudado. O Brasil também mudou. Mas a política não é palco de programa de auditório e representatividade sem coerência vira apenas performance para agradar plateia.

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