A prisão e o cerco político internacional a Nicolás Maduro voltam a ocupar o centro das discussões globais, e não é por acaso. É impossível ignorar o sofrimento do povo venezuelano, que paga o preço por uma gestão marcada por autoritarismo, desigualdade e miséria. A cada notificação de mais uma sanção, mais uma manifestação reprimida ou mais um escândalo de luxo no meio da crise, fica evidente que a Venezuela vive um momento trágico de sua história. E não é de hoje. Do chavismo ao “madurismo”… tudo foi ruim para quem lá mora – ou tenta.
Dói ver que, enquanto pessoas enfrentam a fome, a falta de remédios e a escassez de necessidades básicas, há quem prefira discutir a vida de festas, roupas caras ou banquetes em que o ditador se envolve. É legítimo – e necessário – criticar a forma como Maduro conduz o país. É legítimo sentir indignação diante do sofrimento diário que a população enfrenta, enquanto homens do poder ostentam riqueza e privilégios que beiram o insulto diante da fome generalizada.
Contudo, criticar um governo não pode automaticamente nos transformar em porta-vozes de potências estrangeiras que, historicamente, pouco se importaram com o bem-estar dos povos alheios. A possibilidade, real ou imaginada, de prisão de Maduro proposta por outros países não nos dá o direito de celebrar como se fosse um super-herói internacional assumindo o “papel de xerife moral” do mundo. Isso é, no mínimo, ingênuo, na melhor das hipóteses, e hipócrita, na pior.
Sabemos que quando o povo venezuelano se organiza e se manifesta, a resposta do governo é quase sempre cerceamento, violência ou repressão disfarçada. Mas precisamos lembrar também que a intervenção externa nunca teve, de fato, o interesse prioritário pelo bem-estar do povo venezuelano. Nos últimos séculos, o que mais motivou as grandes potências a se envolverem na América Latina foi a exploração de recursos naturais e, no caso da Venezuela, esse “recurso” tem nome: petróleo.
Hoje, enquanto parte da mídia ocidental fala em “intervir por democracia”, logo surgem vozes defendendo que, se a justificativa para invadir a Venezuela é combater o sofrimento do povo, por que não aplicar o mesmo critério à China, à Coreia do Norte ou à Rússia? Ou será que a explicação é, na verdade, outra, menos nobre e muito mais ligada a interesses estratégicos e econômicos?
É difícil ignorar que, muitas vezes, o argumento moral é apenas cortina de fumaça para jogos de poder. Ver os Estados Unidos, por exemplo, recorrerem a motivos como “combate ao tráfico de drogas” para justificar pressões sobre países vizinhos como a Colômbia levanta mais perguntas do que respostas. O que a Colômbia tem de tão diferente, além de problemas antigos e complexos, para justificar uma nova retórica de intervenção? Afinal, foi um país que elegeu, democraticamente, seu presidente.
E aqui entra outro ponto incômodo: nas redes sociais, proliferam publicações de pseudopolíticos e influenciadores que, com uma retórica simplista e xenófoba, desejam que “se isso acontecer no Brasil também”. É gente que, claramente, não se importa com a complexidade política, social ou histórica de qualquer país e, muito menos, com o respeito à soberania nacional. Chamam o Brasil de “Bostil” e, em seguida, pedem que outros países adotem práticas agressivas como se fosse piada fácil. Desconhecem algo chamado SOBERANIA.
Não é porque discordamos da condução política de Maduro que devemos aplaudir qualquer proposta de intervenção ou prisão sem avaliar o custo humano, diplomático e ético disso. É legítimo e urgente defender o povo venezuelano e exigir respeito aos direitos humanos. Mas fazê-lo sem cair na armadilha de defender intervenções imperialistas ou soluções simplistas é um desafio que exige maturidade política e consciência crítica.








