O futebol brasileiro vive, em seus bastidores, um daqueles capítulos que misturam esperança, pragmatismo e… déjà vu. A CBF abriu conversas com Carlo Ancelotti para estender seu contrato até 2030, a tempo de atravessar não apenas a Copa de 2026, mas também o ciclo seguinte rumo a lá hexa. E olha só: querem fechar o acerto antes mesmo de a Copa começar: voto de confiança ou jogada de marketing?
Antes que os cronistas de plantão entrem em êxtase, a cena não é exatamente inédita. A própria CBF andou por um labirinto parecido com Tite, confiando num projeto de longo prazo que acabou rendendo mais turbulência do que taças. Jogos “OK”, mas pouco sucesso. Quando a conversa agora é em moldes tão amplos – praticamente blindando Ancelotti até o fim da década – a pergunta que não quer calar é: será que estamos apostando no homem certo ou apenas repetindo a velha cartilha de sossegar torcedor?
Há duas vertentes: uma de deixá-lo guiar o processo para pôr o Brasil, de novo, entre os melhores do mundo. Afinal, a trilha até a próxima Copa foi muito mal conduzida pela própria CBF, que fez escolhas horríveis como Ramon Menezes e Fernando Diniz. Assim, Ancelotti teria não somente carta branca para testar, dentro de um prazo razoável, jogadores, esquemas e, em 2030, ser favorito ao título. Em 2026, a própria CBF coloca a equipe como franca-atiradora. E não está errada quanto a isso. Muito do que se viu até aqui tem muito palpite viciado de pessoas de dentro da CBF, imprensa do eixo e palpiteiros de plantão, que em nada querem o bem do futebol.
Outra vertente é definir, agora, o fio condutor até a próxima Copa assumindo um risco. Não pelo currículo vasto de Ancelotti, mas por vezes por ser que uma solução boa num momento que as coisas não casam. E aí fica a dúvida: caso o Brasil não tenha boa participação, não seria o caso de pensar outros nomes (incluindo estrangeiros) que conhecem mais o futebol brasileiro? A CBF, pelo visto, acha que a segunda opção não existe.
Do lado da CBF, aliás, o discurso é de tranquilidade. Dizem nos bastidores que o italiano já caiu nas graças da diretoria e do grupo, e que o contrato ampliado seria um sinal de estabilidade. Afinal, discutir renovação depois de uma Copa pode sair bem mais caro. Por outro lado, questionadores de plantão lembram que o futebol brasileiro não precisa só de continuidade, mas de coerência estratégica – algo que nem sempre se traduziu em sucesso completo na última década. E outra, parar com a xenofobia ridícula que Oswaldo de Oliveira e Leão protagonizaram recentemente.
Ancelotti, claro, tem currículo e status de estrela global, e já teria sinalizado abertura para seguir no Brasil depois do Mundial de 2026. O contrato dele é muito bom, tanto financeiramente quanto as regalias que têm direito – incluindo viagens à Europa, etc, etc. Dependendo do resultado do Mundial, isso vai melhorar ainda mais. Logo, para ele, tudo na mais santa paz! Para a CBF, acredito que também. E você, torcedor? Acha a tacada certeira? Para mim, uma estratégia arriscada, mas que pode ser uma saída justa. Afinal, Ancelotti é muito competente e um vitorioso por onde passou. Talvez valesse a penas esperar um pouco mais, levando em conta o início do próximo ano. Contudo, se hoje o técnico já deu sinal verde, antes garanti-lo que perdê-lo por um outro projeto sedutor.








