Na semana em que Brasil e Índia oficializaram um acordo de cooperação sobre minerais críticos e comércio bilateral, o cenário político externo ganha um novo capítulo que não pode ser analisado sem considerar as engrenagens da economia global e o possível impacto desse movimento sobre os Estados Unidos sob o comando de Donald Trump.
O pacto assinado em Nova Déli entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Narendra Modi prevê uma ampliação significativa da cooperação em minerais críticos, terras raras e energias renováveis, além da meta de elevar o comércio bilateral para mais de US$ 20 bilhões nos próximos cinco anos.
Esse tipo de acordo, além de econômico, tem forte componente estratégico: países com grandes reservas de minerais essenciais para tecnologia, energia limpa e defesa estão se organizando para reforçar cadeias de suprimentos que não dependam apenas da China. Brasil e Índia, neste xadrez, podem atuar como alternativas e contrapontos.
O que isso representa para os EUA e Trump
A assinatura desse memorando de entendimento não acontece em um vácuo geopolítico. Na presidência de Trump, os Estados Unidos adotaram uma postura fortemente protecionista e orientada por sua política “America First”, com tarifas elevadas e disputas bilaterais com parceiros tradicionais e emergentes. Aliás, isso recentemente acabou sendo posto como inaceitável pela Suprema Corte Americana.
Trump já impôs tarifas significativas sobre produtos brasileiros e indianos nos últimos tempos, em uma tentativa de proteger a indústria americana e reduzir déficits comerciais, gerando atritos com esses países. Em paralelo, os EUA estão mobilizando iniciativas regionais e globais para fortalecer seu acesso a minerais críticos, inclusive por meio de blocos que convidam países como o Brasil a integrar uma cadeia de suprimentos alternativa ao domínio chinês nesse setor.
Nesse contexto, há uma tensão implícita:
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Para Trump, acordos multilaterais como o Brasil-Índia podem ser vistos como um desafio à influência econômica americana, sobretudo se esses países passarem a negociar entre si ou em moedas locais, reduzindo a centralidade do dólar.
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Para Brasil e Índia, estes pactos fortalecem a autonomia estratégica, diversificando parceiros comerciais e reforçando cadeias de suprimentos que não dependam exclusivamente de Pequim nem de Washington.
Há ainda fatores a considerar: Lula já sinalizou a intenção de discutir pessoalmente comércio e cooperação em minerais com Trump em um encontro bilateral previsto para março em Washington. Isso pode ser um termômetro importante: será uma oportunidade para negociar diretamente com os EUA sobre tarifas e temas sensíveis, mas também para testar até que ponto Washington está disposto a aceitar uma aproximação estratégica entre países do Sul Global que pode diminuir seu protagonismo econômico, especialmente em setores críticos.
Uma nova frente geopolítica em formação?
O movimento de Brasil e Índia vai além de uma simples expansão do comércio bilateral. Ele sinaliza a formação de uma aliança que pode reconfigurar como países emergentes abordam recursos-chave em um mundo em transição, em que tecnologia, energia limpa e guerra econômica são dimensões tão importante quanto a diplomacia tradicional.
Nesse tabuleiro global, a atenção de Trump não será apenas sobre números de exportação ou tarifas: será sobre quem controla as matérias-primas do futuro e como as grandes potências reagem a isso. E, nesse jogo, a aproximação Brasil-Índia pode ser um ponto de inflexão, tanto como desafio quanto como porta de negociação.








