A família Bolsonaro sempre vendeu a imagem de unidade férrea, de uma tropa coesa que se move em uníssono contra o “sistema”. Mas, na prática, o que se vê é uma panela de pressão prestes a explodir. O patriarca, Jair Bolsonaro, preso e inelegível, já percebeu que a temperatura subiu demais e tenta, ainda que tarde, aconselhar o filho a baixar o tom. “Maneira, Eduardo”, teria dito. O problema é que o filho 03 não é do tipo que aceita conselho – ainda mais vindo de alguém que hoje já não tem o mesmo poder de articulação.
Eduardo Bolsonaro insiste em ser o mais radical do grupo, numa espécie de concurso interno para ver quem grita mais alto contra as instituições. Do exterior, onde vive há meses, repete ataques ao Supremo e ao Estado brasileiro como se fosse um “influencer do exílio”, sem medir as consequências. E aí mora um detalhe que pode custar caro: Eduardo está fora do país há mais de 120 dias, condição que por si só já abre brecha para uma possível cassação de mandato. Some-se a isso o processo que responde no Conselho de Ética da Câmara, acusado de quebra de decoro parlamentar, e o cenário se complica ainda mais.
Enquanto isso, Jair tenta se equilibrar entre a imagem de mártir da direita e o pragmatismo de quem sabe que, para sobreviver politicamente, será preciso algum nível de cálculo. Da prisão, manda recados de moderação, mas é ignorado pelo próprio filho. A dinastia que se dizia guardiã da pátria se mostra incapaz de organizar a própria casa.
E como ficam as eleições nesse tabuleiro? Bolsonaro, inelegível, já não pode entrar em campo. Eduardo, ameaçado de cassação e desgastado por sua postura radical, arrisca virar um peso morto no jogo eleitoral. Flávio e Carlos, cada um a seu modo, tentam manter as rédeas em seus redutos, mas também enfrentam resistências e desgaste de imagem. A marca “Bolsonaro”, que já foi sinônimo de vitória, agora carrega o peso de derrotas judiciais, divisões internas e a sensação de que o mito se transformou em fardo.
O eleitorado de direita, órfão de uma liderança unificada, assiste a esse espetáculo com certo incômodo. Se antes o clã marchava junto, hoje parece caminhar em direções opostas: o pai pedindo moderação, o filho ostentando radicalismo, e a base confusa sobre quem seguir. A família que pregava disciplina militar revela, ironicamente, a desordem de um quartel sem comando.
A grande pergunta é: sobreviverão politicamente? A julgar pelo cenário atual, os Bolsonaro caminham mais para a fragmentação do que para a reconstrução. E se Eduardo continuar apostando no extremismo enquanto o pai clama por cautela, o clã pode descobrir que o maior inimigo não está no Supremo, nem no “sistema”, mas na própria incapacidade de se entender.








