Manoel Carlos, um autor e dramaturgo que sempre esteve à frente do seu tempo
Na noite deste sábado, 10/01, aos 92 anos, faleceu no Rio de Janeiro.
A causa da morte não foi divulgada.
O autor estava internado no Hospital Copa Star, onde fazia tratamento contra a doença de Parkinson, que havia afetado o desenvolvimento motor e cognitivo de Maneco durante o ano de 2025.
Sem dúvidas, Manoel Carlos foi um dos maiores autores, cronistas, dramaturgos e roteiristas que o Brasil já teve!
Deixou de ser ator para se tornar escritor, arte na qual se destacou ao longo de seus 70 anos de carreira.
Paulistano de nascimento e carioca de coração, ambientou suas histórias no Leblon, onde residia e convivia com os moradores e com todos que circulavam pelo famoso bairro da capital fluminense.
Um autor completo!
Destacava suas principais personagens, como Helena, inspirada na homônima de Tróia da mitologia grega, descrevendo a mulher como guerreira, batalhadora e capaz de defender seus ideais como principal premissa. Era também a perspectiva central de suas tramas, vivida por atrizes escolhidas pelo próprio Maneco para dar vida às suas obras.
À frente de seu tempo, soube como ninguém utilizar seus contos e roteiros para debater temas relevantes do cotidiano e mostrar como a ficção pode influenciar diretamente a vida real.
Manoel Carlos compôs e escreveu textos densos, capazes de retratar as mazelas e os problemas que afligem a sociedade brasileira.
Temas que se transformaram em pautas de grandes debates entre a população e as autoridades.
O alcoolismo, por exemplo, foi retratado em Orestes, vivido por Paulo José em Por Amor, e em Santana, interpretada por Vera Holtz em Mulheres Apaixonadas.
A famosa cena de Carolina Dieckmann como Camila, em Laços de Família, raspando a cabeça por causa do tratamento contra a leucemia, despertou o país para a importância da doação de medula óssea.
Outra contribuição importante do autor foi também em Mulheres Apaixonadas: os maus-tratos contra idosos sofridos por Flora e Leopoldo, vividos por Carmen Silva e Osvaldo Louzada, vítimas da neta Clara, interpretada por Regiane Alves, geraram um grande debate que culminou na Lei nº 10.741/2003 – o Estatuto do Idoso, que garante direitos às pessoas com mais de 60 anos.
Os veteranos atores participaram, inclusive, de uma sessão plenária no Congresso Nacional para reforçar a importância da legislação.
São inúmeras as contribuições que Manoel Carlos promoveu com sua arte. Escancarou os perigos da violência contra a mulher com Marcos, vivido por Dan Stulbach, e Raquel, interpretada por Helena Ranaldi.
Também retratou a violência urbana com Theo, de Tony Ramos, e Fernanda, de Vanessa Gerbelli, cuja morte na trama deixou órfã a pequena Salete, vivida por Bruna Marquezine.
Outra paixão do autor retratada em suas obras foi o amor pelos livros e pela literatura. Em Laços de Família, um dos cenários de maior destaque foi a Livraria Dom Casmurro, nome inspirado no personagem de Machado de Assis e também na Livraria Argumento, frequentada por Maneco no Leblon.
O dramaturgo foi tão brilhante que, em uma de suas obras dos anos 80, criou uma coincidência histórica: em Sol de Verão (1982), reuniu Beatriz Segall como Laura Porto e Deborah Bloch como sua neta Clara Porto — as duas que viveriam Odete Roitman em Vale Tudo, em 1988 e no remake de 2025.
Isso foi realmente impressionante!
Outra curiosidade de Maneco é que sua primeira Helena foi vivida por Lilian Lemmertz, em Baila Comigo, e o ciclo se encerrou com a filha da atriz, Júlia Lemmertz, que homenageou a mãe ao interpretar a última Helena em Em Família (2014), a última obra televisiva do autor.
Manoel Carlos também foi o primeiro diretor do Fantástico – O Show da Vida, programa que estreou em 5 de agosto de 1973 e que hoje é uma das principais revistas eletrônicas da televisão brasileira.
Manoel Carlos foi completo.
Que outros autores da atualidade possam seguir sua linha e aperfeiçoá-la.
Autor:
Walmyr Lopes
Jornalista, Cerimonialista, Radialista, Locutor Comercial, Crítico, Cronista e Agitador Cultural.








